6 de março de 2018

Toda vez que contrato um “COACH” estou fazendo “COACHING”, certo!? – Por Marcial Duarte Coêlho

Por Marcial Duarte Coêlho[i]

Cuidado! A resposta à pergunta feita em nosso título – que aparentemente nos traria uma esperada resposta positiva – é um rechonchudo e sonoro “NÃO”! Nesse artigo nosso objetivo será explicar exatamente isso, vale dizer, quando é que você pode estar contratando serviços de um autointitulado coach sem estar, necessariamente, sob um processo de coaching.

Primeiro, cabe dizermos que por coaching designamos o processo de parceria no qual se envolvem coach e coachee (como se designa o cliente da relação), geralmente entrelaçados por um ato contratual, em busca de um objetivo material ou pessoal trazidos por esse último. Bem resumidamente, pode-se simplificar a arte do coaching no emprego de uma série de técnicas, desenvolvidas e utilizadas com objetivos específicos, rumo ao desenvolvimento de uma pessoa. É uma metodologia, assim, que espera gerar e agregar crescimento pessoal e/ou profissional.

Em suma, o foco de atuação do coaching é apoiar (e não ajudar – distinção que voltaremos mais adiante) o cliente a chegar a um resultado específico, geralmente a partir de algumas linhas de atuação, por exemplo: definir, com clareza, as metas do coachee e o desenvolver de competências para alcançá-las; aumentar o nível de consciência e reflexão do cliente sobre alguma questão em específico; incrementar o nível de responsabilidade sobre a própria vida do cliente; potencializar os talentos latentes. Tudo isso mediante estímulos a ações/atitudes concretas, que geram impulsos para mudanças de postura que levem ao objetivo pretendido.

Vale destacarmos que pelo fato de a profissão ou atividade da prática de coaching ser relativamente nova em nosso país ela ainda carece de regulamentação legal. Ou seja, não há – ainda[i] – nenhum ato normativo estatal que discipline (tais como em outras profissões), quem poderia ou não ser chamado de coach. Trocando em miúdos, se amanhã alguém que possivelmente nunca tenha passado sequer na porta de um curso de coaching quiser se autointitular “coach” disso ou daquilo, alterando suas redes sociais, criando um site, imprimindo cartões de visita, etc, essa pessoa não teria nenhuma proibição legal de fazê-lo.

Diante dessa possibilidade (e facilidade!), evidentemente que você poderá encontrar no mercado diversas pessoas que assim atuam. No coaching destinado a preparação de candidatos para concursos públicos ou provas de alta performance em geral (ex: vestibulares, prova da OAB, seleções de mestrado ou doutorado, etc), embora não haja pesquisas para aquilatar esse real quantitativo, estimamos que mais de 80% (isso mesmo que você leu, mais de oitenta por cento!) dos autointitulados coaches simplesmente não tem nenhuma formação de coaching em seus currículos.

É necessário frisarmos que aqueles que não possuem verdadeira titulação (certificação) para a prática do coaching não estão, a rigor, praticando uma atividade irregular. Como dito acima, até que venha a regulamentação estatal da matéria, há liberdade legal para essa prática. A questão de se autoatribuir o nome de “coach” estaria, assim, mais no campo da moral e da ética, do que propriamente no do Direito.

Então, cabe trazermos a pergunta que você deverá estar se fazendo: haveria algum prejuízo se eu contratasse um procedimento de coaching sem que o meu “coach” seja certificado? Aí é que mora o perigo. Um curso sério de formação de coaching certamente passará ao aluno e futuro atuante na área uma série de princípios éticos de atuação que deverão pautar a conduta profissional. Tal principiologia é internacionalmente reconhecida, e para obter uma certificação com nível global tal tópico terá presença obrigatória entre as “matérias” do curso. Consideramos tais princípios fundamentais para o exercício dessa arte, verdadeiros alicerces do sistema, a ponto de dizer que ou o profissional os segue, ou ele certamente estará se afastando da prática de coaching. Estaria assim fazendo tudo, menos coaching em essência.

Alguns princípios da atividade de coaching

Falaremos de alguns princípios que permeiam a atividade profissional de um coacih devidamente certificado e você mesmo, leitor, julgará se os acha importante ou não. Vamos a eles: (a) confidencialidade, (b) não julgamento, (c) confiança e (d) respeito aos limites de atuação e a outras carreiras.

Por (a) confidencialidade, entende-se a obrigação de o coach guardar absoluto sigilo de todo o processo de coaching, obrigação essa que se inicia desde a fase antes da assinatura contratual propriamente dita, ou seja, aquela fase em que geralmente o futuro cliente está sondando o coach para perceber se ele(a) poderá ajudar com sua questão. Esse sigilo é o de mesmo teor de outras profissões já regulamentadas, tais como o do advogado, do médico, do psicólogo, do contador, etc. Por isso que costumeiramente se diz que no local em se realiza as sessões de coaching o cliente está em um “ambiente seguro”. Ali, o(a) cliente poderá relatar todas as suas angústias e falar inclusive de terceiros (ex: mãe, pai, esposo/a, amigos, chefe e colegas de trabalho, etc) com a garantia de que o assunto “morrerá” tão logo se encerre a sessão. O “coach” que desconhece isso poderá trazer um sensível prejuízo não só às suas próprias sessões futuras, como também e especialmente causar indesejados transtornos na vida do(a) coachee, pela divulgação inadvertida de assuntos privados.

Pelo (b) princípio ou dever de não julgamento, impõe-se uma postura de absoluto e irrestrito respeito por parte do coach sobre a visão de mundo e crenças de seu cliente, ainda que elas sejam diametralmente opostas às do profissional coach. Ainda que seja permitido ao profissional questionar sobre esse ou aquele modo de agir e interpretar o mundo (até como forma de gerar ampliação de consciência no coachee), ele deverá guardar total respeito pela resposta que voltar do cliente, ainda que dela discorde integral ou parcialmente. Por exemplo, digamos que por convicções religiosas o cliente afirmar que pode ou não pode fazer determinada atividade, ou ainda que por sua educação doméstica entender que tal ou qual postura deve ser realizada ou, ao contrário, não pode ser deixada de lado. Não é papel do coach “julgar” se isso está correto ou não, cabendo-lhe no máximo fazer o coachee aprofundar a questão, refletindo-o sobre o assunto. O respeito pela posição externada, qualquer que seja ela, deverá ser irrestrito. Em resumo, o coach não está ali para julgar as posições externadas pelo cliente, e qualquer postura que coloque o profissional como o “dono da verdade” certamente se afastará da verdadeira prática do coaching.

Já no (c) princípio da confiança está a essência mesma do processo de parceria que em linhas gerais acima se falou, quando trouxemos uma breve definição de coaching. Voltemos ao tema porque ele é de uma importância ímpar. Ao contrário do imaginado pelos leigos do assunto, não há qualquer relação de verticalidade ou hierarquia entre coach e coachee. O coach não deve se colocar como superior ou mais expert do que o cliente, quebrando a parceria proposta e a transformando em posições de ordenador e cumpridor de tarefas prescritas. Embora isso seja feito em larga escala no mercado, nada mais distante do real coaching. Muito ao contrário, na relação coach-coachee deve-se ter uma absoluta horizontalidade, não sendo raro ouvir a afirmação de que quem realmente “conduz” o processo é o cliente(!). Não há equívoco nessa afirmação. Como se espera que o coach guarde uma postura de neutralidade, de não julgamento, de produtor de ampliação de consciência, é de fato o coachee que é a grande estrela do processo, pois ele/ela é responsável por trazer a situação inicial (ou o problema, como queiram), os objetivos perseguidos e, após o apoio condutor do coach, será dele a responsabilidade pela adoção das posturas concretas que conduzem ao resultado pretendido.

Para complementar esse último ponto, vale lançarmos luzes sobre uma aparentemente singela, mas crucial distinção: a diferença entre “apoiar” e “ajudar” o coachee. No “apoio”, o coach se coloca ao lado do cliente, mas jamais fazendo a tarefa que incumbia a esse último (nesse caso, ele estaria entrando pela linha da “ajuda”). No coaching certificado, o profissional deverá no máximo apoiar o cliente, vale dizer, no máximo o coach deve ser o patrocinador emocional do cliente, fazendo com que este último alcance os resultados por seus próprios e exclusivos méritos. Embora não seja absolutamente vedado sempre e todo sempre ajudar o coachee em um aspecto ou outro (pensemos, por exemplo, que o coach possui um determinado livro ou material que possa incrementar o resultado do cliente), essa não deve ser uma tarefa rotineira e muito menos deve ser a marca do processo. Isso é bastante importante e aqui também se guarda a essência do real coaching. Uma das mais basilares linhas-mestras do coaching é a de que o cliente não deve ficar dependente do processo. Pelo contrário, espera-se uma intervenção limitada no tempo, geralmente durante algumas semanas ou meses. A máxima de um velho provérbio chinês que prediz que “dê um peixe a um homem e ele terá comido um dia, mas o ensine a pescar e ele comerá a vida inteira” aplica-se aqui com perfeição. Assim, o sucesso do coach será tanto quanto o coachee conseguir, por seus próprios méritos e com suas próprias pernas, alcançar o resultado desejado e, mais ainda, aprender o caminho para outros e futuros obstáculos semelhantes. A distinção aqui traçada é, talvez, a que mais define e separa o coaching do processo conhecido como mentoring ou mentoria.

Por fim, cabe falarmos um pouco sobre o (d) âmbito de atuação do coaching e o respeito que esse profissional deve ter em face de outros profissionais habilitados para atuação em searas específicas, tais como psicólogos e/ou médicos psiquiatras. De fato, como o processo de coaching lida diretamente com pessoas e suas crenças limitantes, não raro o profissional coach pode notar que o caso relatado a sua frente ou tem ou pode vir a ter reflexos na saúde mental do cliente. Às vezes, traumas relativamente profundos podem estar na gênese de uma questão trazida. Na maioria dos casos, uma intervenção bem feita de um bom coach, que perceba a situação, pode até mesmo apoiar o cliente a encontrar a solução para sua angústia. Nada obstante, o coach deve ter a sensibilidade e a ética presentes para reconhecer quando o seu coachee está precisando, mesmo, de uma terapia ou acompanhamento médico. De uma forma geral, tratando de uma maneira bem superficial a questão, na maioria dos casos em que o foco esteja em algum aspecto do passado – como um significativo trauma, por exemplo – será caso de intervenções de um psicólogo ou de um psiquiatra. Já o coaching tem foco no futuro, nas ações concretas a serem realizadas no sentido que leva ao resultado pretendido.

Aqui estão relatados alguns princípios que regem o trabalho de responsabilidade desenvolvidos no processo de coaching. Os exemplos mencionados não esgotam a questão. Outros poderiam ser mencionados, como por exemplo (e) a técnica da escuta ativa, (f) o desenvolvimento do estado de presença ou (g) a arte de fazer perguntas poderosas, no que o processo de coaching se assemelha ao clássico método socrático conhecido como maiêutica.

Em resumo, todos eles somados definem os caracteres do coaching e o afastamento das diretrizes traçadas por esses princípios fazem com que aquele que desempenha tal atividade, ainda que se autointitule de “coach”, em verdade esteja desenvolvendo outros processos, como a consultoria, o ensino ou a mentoria. A respeito dessa última metodologia, vale tecermos mais algumas palavras.

Fazendo as devidas separações: coaching e mentoring

Sobre a distinção acima mencionada cabem alguns comentários adicionais, visto que em muitas das vezes aqueles que se posicionam no mercado como coaches estão, em verdade, oferecendo serviços de mentores, ou seja, fazendo mentoria, também conhecida por seu correlativo inglês mentoring.

A grande diferença entre os dois processos está no fato de, na mentoria, o condutor das sessões ser o mentor, que atua como um guia ou conselheiro de seu pupilo. O mentor, assim, diz como o ajudado deverá agir ou fazer. O grau de direção, assim, é significativamente superior a pura técnica do coaching. Como vimos, o coach possui por foco o apoio ao cliente, de forma a produzir nesse o senso de responsabilidade e crescimento próprio necessários à superação do obstáculo, nesse momento e em outros futuros. O coach deve menos dirigir e mais gerar reflexões, fazendo com que o próprio coachee descubra o caminho durante seu processo.

Na temática coaching para concursos públicos e provas especiais (vestibulares, de seleção de mestrado, doutorado, provas da ordem, etc), o que vem sendo notado é que muitos que se posicionam no mercado se apresentam como coaches, mas na mesma grande medida o que se é oferecido é mentoring. Na mentoria, que no máximo poderíamos chamar de um coaching técnico, o que ocorre é tão somente a ajuda ao cliente em seus aspectos objetivos, como ocorre com a produção de planilhas (ou cronogramas) de estudos, indicações bibliográficas e a produção de simulados. De uma forma geral, nenhum aspecto subjetivo ou psicológico é cuidado, até porque o profissional mentor – de regra – não possui qualificação ou certificação para tanto. Esse último aspecto, todavia, já passa a ser umas das ênfases do processo de coaching. Inegavelmente, em casos nos quais se há de enfrentar crenças limitantes (por exemplo: falta de confiança, de senso motivacional, de resiliência, de continuidade, etc), o processo de coaching é definitivamente mais recomendado, vez que o cerne de seu trabalho está aí depositado.

Vale registrarmos aqui que não há qualquer problema no oferecimento da mentoria. De forma nenhuma. Por vezes, pode ser ela mesma a ser recomendada, a depender do caso. Nada obstante, isso deve ficar bem explicitado para o cliente, que pode falsamente imaginar que está submetido a um processo de coaching quando, em verdade, nunca mesmo chegou perto dele – o que está tendo é mentoring. Outras vezes, pode ocorrer de o mesmo profissional – desde que qualificado a tanto – desempenhar ambas as funções (coach e mentor), alterando a posição adotada e o modo de condução do processo a depender das necessidades específicas do cliente. Tais profissionais são altamente recomendados por possuírem, de uma forma geral, boas capacidades de apoiar e/ou ajudar o aluno/coachee, vez que domina quer os aspectos objetivos, quer os subjetivos, necessários ao sucesso do cliente.

Por tudo isso, se você tenciona realizar um processo verdadeiro de coaching ou mesmo de mentoring procure saber do profissional seu histórico de formação, especialmente quais os cursos realizados por aquele, se provém de institutos reconhecidos no mercado e, o mais importante, se o processo se desempenhará nas bases do real coaching ou da mentoria. Tomando tais precauções, e observando suas reais necessidade e expectativas, por certo você não restará decepcionado e, o que é melhor, terá obtido exatamente o que você necessitava.

 

[i] É coach formado desde fevereiro de 2014, com diversos cursos de especialização realizados, entre outros, pelo IBC, pela SBC e por Metaforum Internacional, tais como PNL, constelação familiar, constelação organizacional, coaching integrativo sistêmico, líder coach, executive coaching, entre outros. É também membro do Ministério Público Federal (MPF) desde 2008, com atuação no Estado de Alagoas, tendo sido antes advogado, analista processual e juiz de Direito pelo TJ/AL. No MPF, é um dos atuais formadores (trainer) do programa nacional denominado Líder Coach, organizado pela Procuradoria-Geral da República. Por fim, é, ainda, professor de ciências criminais (Direito Penal e Processual Penal) e mestrando em Direito pela Universidade Federal de Alagoas.

[ii] Vale destacar essa palavra – ainda -, uma vez que os mais conhecidos institutos que trabalham com a temática, além dos próprios profissionais, os “verdadeiros” coaches, vêm cada vez mais lutando por tal regulação.

6 de março de 2018

Autor: Marcial Duarte Coêlho

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